Sexta de Crônicas

Amizade

É igual eu falo: cabeça é pra pensar. Se não pensa, dá nisso: besteira. Quanto foi, afinal, que você deu pra ele?
Tudo.
Tudo?
Foi. Tudo que eu tinha no banco.
Você é doida?
Fiz besteira, não é?
E ainda não sabe? Ainda não tem certeza? Num hospício, amarrada, camisa de força, é onde você devia estar.
Não fale assim.
De que jeito você quer que eu fale? Faz um tempão que você perdeu o último resquício de bom senso, amiga.
Ele estava precisado, o que é que eu podia fazer?
É evidente que estava precisado. Ele não trabalha, não tem conta pra pagar, não tem compromissos, tem você pra dar tudo pra ele.
Você não entende, mas quando a gente gosta mesmo de alguém, faz concessões.
Essa parte eu entendo, querida. Perfeitamente bem. A parte que não entendo é se anular desse jeito.
Tá bom. Mas se você estiver certa, o que é que eu faço agora?
Se tranca no seu quarto e chora. É a única coisa que você pode fazer.
Será que ele vai me devolver o dinheiro?
Ah, você ainda duvida? Pois eu duvido é que ele volte a aparecer.
(Fungadas.)
Chora. Pode chorar. Na hora não quis escutar, agora vai aprender da pior maneira.
(Fungadas.)
Só não entendo por que você fez isso.
Eu achei que ele tivesse mudado.
Você não acha nada, sinto muito, você só vive perdendo.
O que eu faço agora? Tem que haver uma saída.
Que eu possa ver não tem nada que você possa fazer, sinto muito.
Mas deve haver um jeito, quem sabe eu faço uma “amarração”, uma coisa dessas, sei lá. Você nunca fez?
O quê? “Amarração”? Você tá passando dos limites, amiga. Acredita em tudo que vê pela frente, não aprende mesmo! Acreditou num safado e agora vai querer acreditar em tudo quanto é safado que existe por aí.
Mas a Ledinha fez, lembra?
Ah, fez?! E deu certo, deu?
Não.
Então, filha de Deus, você não se cansa de ser enganada? Eu fico cansada só de ver.
(Fungada.)
E já imaginou se tal coisa dá certo e você fica com esse traste amarrado em você a vida inteira?
(Fungada.)
Vai, para com essa choradeira!
Você nem se importa e não me ajuda em nada. Que espécie de amiga é você?
A pior, menina. Aquela que fala a verdade na sua cara, mesmo sabendo que não adianta nada, e só vai servir pra deixar você chateada comigo. Verdade é que nem água no ouvido. Ninguém gosta.
Amizade é isso, então?
Não sei o que é amizade. Tem gente que acha que amiga é pra acompanhar nas farras, nas compras, se divertir junto, ouvir as besteiras e passar a mão na cabeça, falar “tadinha, tadinha! chora no meu ombro, chora”. Mas tem gente que acha que amiga é quem alerta sobre a besteira que a pessoa está cometendo e, mesmo furiosa, fica do seu lado na hora que você precisa, tentando abrir seu olho. Portanto, não sei. Acho que depende da pessoa.
Se eu morresse você iria a meu enterro?
Se você morresse quando? Hoje?
Não. Qualquer dia.
Qualquer dia, eu iria. Hoje, não.
(Fungadas.)
Pronto, agora chega. Vá lavar essa cara que daqui a pouco chega outro freguês.


(Publicado pela primeira vez em “O Popular”)

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