Sexta de crônicas

Os crimes do vizinho

Seu Freijó ficou gravado na infância de Maria Rita por dois assassinatos.

O primeiro, o tiro que deu no peito de sua cachorra Rainha.
Rainha latia muito, latidos que redobravam quando Seu Freijó passava, como se já pressentisse o significado dele em seu destino – não à toa falam do sexto-sentido dos bichos. E latia muito também, quando cheirava a odiosa presença do vizinho do outro lado do muro alto de tijolos brancos do quintal. Latidos agudos, histéricos, insanos: havia algo ali e ela sabia disso, a pobre cachorra, rainha impotente de um reino inexistente.

O outro assassinato do Seu Freijó foi metafórico porém fecundo, se é que se pode dizer isso de um assassinato.

Maria Rita era amiga da filha do vizinho, adolescente como ela, dona do clássico nome Aspásia. Às vezes emprestavam livros uma para outra, e Maria Rita lhe emprestou um livro de Edgar Allan Poe. Quando a imponente Aspásia lhe devolveu seu Poe, Maria Rita se deparou com um livro completamente cheio de rabiscos; não exatamente rabiscos, correções. O que Aspásia, orgulho irradiando dos olhos superiores lhe explicou que eram erros que seu pai havia encontrado no livro, “Está vendo o tanto!?”.
Certa de que iria encontrar nos olhos da amiga concordância e admiração, o que viu foi estupor: “Como assim? Que erros?! Como Seu Freijó ousara corrigir Edgar Allan Poe! Como que direito! O que era aquilo?!”

Tão consternada e furiosa Maria Rita entrou em casa que por pouco não pisava no rabo de Faniquito, o gato quase mudo que substituiu Rainha. Lágrimas prestes a cair dos olhos cheios, contou o ultraje: “Aquele monstro, mamãe! Olha meu livro todo rabiscado! Como aquele assassino foi capaz de fazer uma coisa dessas. Por que ele não está preso?!”

Aos poucos, a revolta dando lugar à curiosidade espicaçada, examinando as correções, e sem sequer imaginar os absurdos que podem ser cometidos por uma impressão tipográfica desleixada, Maria Rita teve que admitir que talvez, sim, aqui. E aqui, não!? Será?! Não é possível! Não!!

Com o tempo, passado o insulto, ficou a desolação, a terra arrasada, as ruínas de uma absurda catástrofe. Se seus amados escritores não sabiam escrever português, tudo então era possível. O sagrado não existia mais, assassinado pelo Seu Freijó.

E ali terminou sua fé nas coisas e nas pessoas perfeitas.

Felizmente, não seu raciocínio.

Pois se um mero vizinho podia achar erros em Poe, era o impossível que se tornava possível, e o mundo se revelava imenso e novo. Se o conhecimento não está talhado nas pedras e tampouco nas páginas de um livro, não pode ser um dogma. Se as pessoas não são perfeitas, não há ídolos nem heróis, verdadeiros ou falsos. O homem acerta porque foi capaz de errar e, porque foi capaz de errar, acerta.

A descoberta das inconcebíveis contradições de um mundo não perfeito abria espaços novos e extraordinários.

No seu sofá do seu analista, anos depois, Maria Rita entendeu o quanto devia agradecer ao segundo crime do Seu Freijó.

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