Historinhas editoriais

Outro dia, Angela Lago postou no Facebook uma frase que teve grande repercussão, tirada do “Dicionário Kazar”, de Milorad Pávitch:

“O caminho mais seguro para chegar ao verdadeiro futuro (pois existe também um falso futuro) é ir na direção em que teu medo cresce.”

De fato, um livro maravilhoso, esse romance estruturado em verbetes contando a história de um povo que caçava sonhos. Foi publicado aqui no Brasil pela que foi, uma vez, a Editora Marco Zero. Comprei seu direito de publicação em minha primeira ida à Feira de Frankfurt.
Um pouco porque, como editores pequenos, não tínhamos grandes recursos, e muito porque tínhamos mesmo essa ideia de descobrir talentos fora do grande circuito, nossa estratégia na feira era visitar os estandes de países pouco procurados. Foi assim que fui parar no pouco concorrido estande da Iugoslávia e lá encontrei esse intrigante romance em forma de dicionário.
O romance acabou virando febre mundial e fez grande sucesso por aqui.
Foi também mais ou menos assim, caçando talentos até então desconhecidos, que publicamos aqui, pela primeira vez, a canadense Margaret Atwood, a Alice Walker de “A Cor Púrpura”, os suecos Henning Mankell e Lars Gustafsson, os revolucionários Richard Brautigan e William Gass, e tantos outros, inclusive “Os Cus de Judas”, do Lobo Antunes.
Aliás, outra coisa que me fez lembrar dessa Marco Zero vibrante e ousada de antes foi a homenagem que a Flip fez a Oswald de Andrade. O nome da editora foi uma homenagem nossa – os três sócios-fundadores, Felipe Lindoso, Márcio Souza e eu – a esse nosso grande escritor modernista, nosso antropófago mestre.
Mas o que era doce, acabou-se.
A Marco Zero morreu aos 18 anos de idade, em 1998. Assassinada por um representante letal do capitalismo selvagem e burro. O selo que ainda meio que existe por aí com esse nome não passa de um defunto conspurcado que nada tem a ver com a rocambolesca aventura e origem da editora que primeiro teve esse nome.
Títulos como esse que citei acima, estão agora ou com a Rocco ou com a Cia das Letras, ou lamentavelmente fora do mercado, como esse mágico romance da epopeia Kazar.
Dommage, né não?

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4 respostas para Historinhas editoriais

  1. Silvana disse:

    Afe, Zezé, e põe dommage nisso… Vi esse post da Angela no facebook e fiquei com vontade de ir atrás do texto. É mesmo uma pena que a sua Marco Zero e livros como esse não tenham tido o futuro que mereciam.

  2. Obrigada, querida! Beijocas.

  3. Zezé querida,
    Li seu blog – suas últimas postagens. Que dilícia, como diria minha neta. Gostoso, prazeroso, enxuto, Parece que você escreve com os olhos. A-d-o-r-e-i! Beijos

  4. Aña, Aña! Beijos com muitas saudades, Hehé

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