Ando prevendo coisas

De uns tempos pra cá ando prevendo coisas, e não estou gostando disso.
Quando saí e minha filha disse, “Cuidado, mãe, tá chovendo pedra!”, de imediato pensei, “Vai acontecer alguma coisa”. E tanto foi assim que ao pisar no freio, vendo a traseira do carro branco se avolumar à minha frente, o único pensamento que tive foi: “Mas eu previ isso!”
Teve um dia, também, que saí de casa prevendo que encontraria alguém conhecido na caminhada diária e nem foi preciso virar a esquina para trombar com “uma” alguém. Uma “alguém” de quem não gosto, e o fato de ter previsto a situação contribuiu para o espanto que, surpresa, ela traduziu como simpatia. Melhor assim.
E teve outro dia também que acordei pensando, “Hoje vou ter uma notícia boa”, e tive. O que acabou me ensinando que esse tipo de coisa não dá pra forjar pois no dia seguinte, embora tenha falado sorrateira pra mim mesma, “Acorde amanhã pensando que vai ter outra notícia boa”, não deu certo. Se há uma maneira de manipular o destino, ainda não aprendi.
As previsões que temos todos os dias e que quase sempre dão certo, tipo “esse filme vai ser um abacaxi” ou “vou adorar esse livro” ou o telefone que toca e sabemos quem é não contam. Aliás, essa é facílima: eu adivinho bastante de quem são os telefonemas que recebo. Mas todo esse tipo de premonições corriqueiras é, sabemos, resultado de uma série de informações, conhecimento, experiências que vão se acumulando e nos tornando verdadeiras “súmulas ambulantes” em matéria de previsões.
O que, de fato, somos.
Vivemos porque prevemos. Somos animais capazes de prever o futuro, e é isso o que nos salva, se é que podemos dizer que temos nos salvado. Para planejar, é preciso prever, e até onde sei, o homem é o bicho que planeja. Fazemos isso todo santo dia. Acordamos com nossos planos e previsões, e mais ainda: planos e previsões otimistas, caso contrário possivelmente nem levantaríamos a cabeça do travesseiro, muito menos colocaríamos o pé no chão. Que os pessimistas me perdoem mas o homem é, por natureza, otimista. Ter certeza que o sol vai dispor seus raios em nossa janela amanhã no mesmo horário, e que nenhum astro distraído cairá hoje em nossa cabeça é, pense bem, de um otimismo estonteante!
A questão, na verdade, começa quando os fatos fogem das previsões rotineiras. Ou saem ao contrário do que pensávamos. Assim, quando começamos a achar que alguma coisa está errada (não conosco, com o mundo), e soltamos aquele lamento incrédulo, “Não é possível que esteja acontecendo isso!”, prepare-se. De um jeito ou de outro, vamos sofrer.
Por isso, a frase do começo. Acho insuportável ter lampejos de previsão. Nem por brincadeira vou a cartomantes. Claro que não acredito, mas vai que ela preveja alguma coisa ruim, e vai que o diabo atente e ela acerte? Há tanta coisa inexplicável no mundo para uma mente, como a minha, que sequer entende direito como uma televisão funciona, que não; melhor não arriscar. Só se as cartomantes garantissem prever apenas coisas boas.
Aí, sim. Eu não perderia uma.

(Crônica publicada por primeira vez no jornal “O Popular”, de Goiânia.)

Anúncios
Esse post foi publicado em Cotidiano. Bookmark o link permanente.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s