Acompanhando sem pudor

Como você cria seus personagens? Ou, se preferir, como criou um determinado personagem de sua ficção?

Fernando Monteiro responde:

“É mesmo uma questão intrigante, essa de como criamos os personagens.
Quanto a mim, eu prefiro quando não sei quase nada a respeito deles — e os acompanho (veja o verbo: acompanhar) desde o início da narrativa, sem o pudor que teria ao acompanhar um ser de carne e osso, vivo e bolindo.
Entretanto, os seres que criamos também estão “vivos” — ou deveriam estar.
Chego a pensar que não poderá resultar num personagem atraente aquele que o autor não “siga” senão com total interesse, curiosidade e surpresa. De repente, esse personagem faz algo inteiramente imprevisto — sim, imprevisto para quem o criou.
Por exemplo: no último minuto, ele não confessa algo que veio confessar numa certa casa, atravessando a chuva.
Você, autor, o seguiu pelas ruas escuras, sentindo-se também ensopado da água que o personagem ia ignorando, de cabeça descoberta (assim como você), porque ele seguia rumo a um determinado endereço, com a premente necessidade de fazer a tal confissão.
E ele chega na casa, bate, insiste, bate de novo, alguém vem lhe atender afinal, e o personagem entra, molhando o carpete etc… para, então, NÃO fazer a confissão. Ou seja, o que estava “previsto” para acontecer não acontece.
Ali está você, autor, olhando para o seu personagem: o que foi que deu nele? Por que [você] mudou de ideia no último minuto?…

Esse é o personagem que passa a me interessar — como uma borboleta rara interessa a um entomólogo obsessivo. O interesse que ele me desperta corresponderá matematicamente ao interesse que também irá despertar no leitor, porque aquele personagem não é um autômato reagindo de acordo com a nossa parte “consciente” ditando comportamentos e ações tirados da manguinha puída de mágico de feira: trata-se de um ser que me intriga, me comove e me interessa como Lord Jim interessa a Marlow, ou como os assassinos daquela família chacinada interessaram ao cruel Capote…
Os exemplos seriam muitos e muitos, porém, todos no sentido de que um personagem só poderá ser bem construído com aquilo que nós NÃO SABEMOS sobre ele.
Talvez o melhor exemplo disso na moderna literatura seja Jay Gatsby. Ele só continua a nos interessar (e até apaixonar) porque F. Scott Fitzgerald sabia tanto sobre ele quanto nós, quando começamos a ler sobre aquela luz incerta de boia numa pequena marina particular da Costa Leste, na misteriosa mansão de um ricaço que quase ninguém vê nas suas próprias festas… Quem é Gatsby? Fitzgerald não sabe, porém continua a escrever… e cria um dos maiores personagens da moderna literatura ocidental.”

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