Confidência

Já se foi o tempo em que um dos meus passeios prediletos era entrar em livrarias. Quando elas eram um espaço-porto familiar e acolhedor nas cidades onde morei e por onde passei. Um espaço com o qual eu me identificava em qualquer lugar do mundo.

Já não é mais.

O tsunami de livros que parece engolfar quem atualmente entra nas livrarias me abate. É livro demais, novidades demais, as livrarias são grandes demais. Como se os livros fossem da espécie literária dos coelhos se reproduzindo à noite, no escurinho das estantes.
Tudo é demasiado e me aflige: nem se me fosse concedida a imortalidade, daria conta de lê-los todos e, aliás, nem gostaria: a quantidade de bobagens entre eles é bem maior do que as coisas boas.

Tampouco é só por isso.

É também por que me vejo, nesses momentos, obrigada a me perguntar: por que escrevo? Por que contribuo com essa desova incessante de novas edições de clássicos e outros, novas traduções, autores conhecidos reeditados com novas capas, autores novos surgindo a cada momento? A impressão que às vezes tenho é que o mundo todo, de comum acordo, resolveu certa manhã se pôr a escrever. Qualquer cantor, qualquer ator, qualquer humorista, qualquer um acha que pode escrever. Ser escritor atualmente é a profissão da casa da mãe-joana: basta querer e escrever qualquer bobagem e, se conseguir ou pagar a edição de seu livro, pronto! Veste sua roupinha de escritor nos dias de folga e sai pelo mundo.

Queria ver o que aconteceria se nós, escritores, da mesma forma resolvêssemos subir em um palco e virar cantor/cantora, ator/atriz ou… médica/padre/dentista/stripper? Claro: para qualquer outro ofício, todo mundo sabe que são necessários requisitos, mas para o de escritor parecem achar que ter escrito algum bilhete na vida ou uma carta para um amor é o bastante.

É por essas coisas que atualmente ir a uma livraria me provoca uma acachapante crise existencial. Saio de lá me perguntando por que não volto a ser apenas leitora, como fui boa parte da minha vida?

Não ficaria mais feliz?

Não. Não ficaria.

Por algum inexplicável defeito de nascença e formação, não tenho vontade de fazer nenhuma outra coisa a não ser escrever. E assim, sem saída, aqui volto eu a meu computador, e escrevo cada dia algumas frases e nos dias de sorte algumas páginas de um novo livro, com a absurda esperança de que haverá um leitor que entrará em uma livraria e escolherá justo meu livro entre a pletora dos que tem à sua disposição e o levará para casa e o lerá com alguma emoção e ao fechá-lo pensará, Que pena que acabou!

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2 respostas para Confidência

  1. Silvana disse:

    Zezé, compartilho de tudo que você colocou. Sair no meio da tarde pra tomar um cafezinho e passar um tempo xeretando livros era um dos meus programas prediletos. Não é mais. A quantidade de lançamentos é enorme, fico confusa, acabo comprando títulos que não dou conta de ler, enfim, me sinto mais “consumista” do que leitora. Outro dia descobri uma livraria de “bairro”deliciosa, na Cardoso de Almeida, foi um achado! Silêncio, pouca gente, títulos selecionados, os donos no caixa… Em geral, dá até agonia enfrentar a ala dos infantis onde as “novidades” são ainda mais abundantes. E certas livrarias simplesmente expõem o estoque. Desanimo só de ver aquela infinidade de livros, tudo empilhado. O “novo” (e não o “bom”) é o que norteia os critérios de exposição. Um mês depois de lançado, o livro vai pra estante e não volta mais. É um pena.
    beijo

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