Sexta de crônicas

CINTILAÇÕES DA MODA

Quem saberia dizer o que é um “vestido otimista”? Ou o tom exato de um “azul feroz”?
No romance que estou começando a escrever, um dos personagens será estilista. Temos estilistas interessantíssimos no Brasil, com criações inspiradas na cultura brasileira e uma preocupação social que, embora não se mostre nas passarelas, está presente nos bastidores. Estilistas como Ronaldo Fraga – para citar apenas meu preferido – criam cooperativas e escolas pelo interior do país, prestigiam os artesãos com quem trabalham, tentam seguir o fio da responsabilidade social no que fazem.
Dessa cadeia de produção, o que vemos é uma ponta (as modelos, a passarela, o glamour), mas a outra ponta (a matéria-prima, as costureiras, as piloteiras, toda a parte industrial) fica bem longe.
No entanto, está tudo ligado. É bonita essa ligação, esse processo vivo. São todos um só trabalhando na peça que alguém vai usar. Quem veste a peça final – de design, corte, caimento e acabamento perfeitos – está ligado a um monte de gente, inclusive à bordadeira do interior que fez aquele detalhe que cintila na peça.
Há, portanto, essa coisa fantástica sustentando a indústria da moda.
Mas há também seu lado obscuro. É uma indústria que também polui e explora, como qualquer outra que movimenta milhões. Tem mão de obra semiescrava e preços de banana em uma ponta e, na outra, o luxo e preços de um exagero espantoso.
Mas do que eu queria falar aqui não é nada disso. É que por conta desse meu personagem, ando lendo sobre o assunto e me deliciando com as metáforas que alguns jornalistas e críticos da moda criam para explicar as coleções. Como se contaminados pela beleza do que veem, eles também quisessem encontrar uma passarela para desfilar suas metáforas.
Inventam definições bonitinhas, como essa coisa dos nomes das cores da moda – “lilás flu’, “branco triturado’, ‘toffee”, “tons de pó-de-arroz” -, chegando aos elaborados “energéticos verdes da geminação”, “azuis ferozes”, “vermelhos misturados em lava derretida”.
Até aí, maravilha. Tudo é só glamour.
Mas a coisa começa a ficar bizarra quando eles se animam e entram ousadamente em outro espaço de afinidades descritivas.
Tirei essas pérolas de trechos de reportagens que, se alguém entender, por favor me explique:
“Uma proposta que pretende misturar dinossauros e a era vitoriana traduzidos para o século 21”.
“Uma coleção que tem um quê intelectualizado na silhueta.”
E a que para mim virou hors concours: “Com cores inspiradas no nécessaire feminino e um leve odor típico do mundo equino, o desfile da Gucci foi uma bela mistura entre o masculino e feminino.”
E por aí vai. Se você prestar atenção na linguagem das matérias sobre moda, vai se deparar com essas construções hilárias.
Agora, uma coisa é certa. Embora não saiba exatamente o que vem a ser um “vestido otimista”, eu bem gostaria de ter um!

(Publicado em “O Popular”)

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2 respostas para Sexta de crônicas

  1. Susana disse:

    Ai, please, Zezé, se achar um “vestido otimista” me avise correndo, também eu quero um!
    Querida, se está escrevendo sobre moda, dê uma olhada no trabalho de uma jovem de BH. Eu conheci o primo dela em Lisboa há alguns meses. Ela é Júlia Valle.Eu andava procurando gente que pensasse literatura e moda (como o Ronaldo Fraga) e o Rams me mostrou o trabalho dela, que trabalha num espaço chamado Casa Ramalhete. Dê uma olhada na página: http://www.juliavalle.com/
    Beijinhos
    Su

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