Sexta de contos

Duas irmãs

Ele se apaixonou por uma mulher 20 anos mais velha – uma delas fala e ajeita a bolsa no colo, prestando atenção na reação da irmã. As duas estão sentadas no fundo do ônibus. A que falou estava do lado da janela.
Se ela também estiver apaixonada por ele, o que é que tem? – a outra responde, sem muito interesse em continuar a conversa.
Como assim o que é que tem? Vinte anos, ficou maluca?
Um dos casais mais felizes que conheço, ele é 20 anos mais novo do que ela. E vivem juntos há um tempão!
Só se foi na novela que você viu isso.
Vi na vida real, querida.
E você aceitaria uma coisa dessas?
Que coisa?
Viver com um homem 20 anos mais novo do que você?
Se os dois se amam, quem não aceita é porque é covarde.
E alguma coisa no jeito como ela falou fez a irmã desviar o olhar como se tivesse acabado de perceber que estava sentada ao lado de alguém detestável. Pôs os olhos no vidro da janela do ônibus e ajeitou outra vez a bolsa no colo. Nenhuma das duas falou mais nada.
Ruminavam.
A ruminação de uma
: Covarde, ela disse! É de mim que tá falando. Dela mesma não fala nada. Não abre a boca pra falar daquele idiota que quase acabou com sua vida. E agora esse cara misterioso de quem nunca diz nada. Será que nunca vai aprender?! Sofre, sofre e finge que não liga. Finge que segue em frente. E se fecha no banheiro pra chorar. Quando teve que voltar pra casa, abandonada, era isso que ela fazia, se escondia no banheiro e achava que eu não percebia. A sabe-tudo. A metida à besta. Só porque fez faculdade e saiu de casa e se apaixona por qualquer um, acha que é melhor do que eu. E se julga capaz até de me dar conselhos. Que a vida que eu levo não é vida. Que eu devia fazer isso, devia fazer aquilo. Como se eu não soubesse o tanto que ela chora. A mártir sofredora. Da próxima vez que eu a pegar chorando vou esfregar o choro na cara dela!
A ruminação da outra: Ah, essa minha irmã jogando seus verdes pra colher maduro. Achando que vou contar que idade tem o Inácio. Ela nunca vai aprender. Tão segura de suas regras. Tão parca de ideias. Esse jeito de achar tudo absurdo, tudo errado. Nunca um amor, uma paixão. A vida toda essa incapacidade de tentar alguma coisa, sair do dia-a-dia de sempre, a mesma ladainha, o mesmo almoço, o mesmo jantar, o mesmo programa de TV, o mesmo revirar na cama à noite. Terror pânico da vida. Deixando o tempo passar e ela parada. Incapaz de agir. Só falando dos outros, vivendo a vida dos outros, que estupidez! E não adianta dizer nada. Nunca adiantou. Ninguém muda a vida de ninguém, essa é que a verdade. Já cansei de tentar. Deixa pra lá.
O ônibus chega ao fim da linha. As duas descem, caminham em silêncio para casa. Uma entra no antigo quarto dos pais já falecidos; a outra, no quarto que antes era das duas e agora é só seu. Cada um fecha a sua porta. Uma liga a televisão. A outra se deita na cama de olhos abertos.

(Publicado pela primeira vez em “O Popular”)

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