Sexta de contos

Retornando aos dias comuns deste blog, hoje tem um conto pra vocês, desejando a todos um bom final de semana.

“O COITADO

– Antes de morrer, o pai deu o apartamento pro Derley – diz Juvenal, acabando de chegar e se encostando na mesa da cozinha.

– Então, ele está bem – Cleusa responde, enxaguando uma panela.

– Está nada. Perdeu tudo.

– Como assim, perdeu?

– No jogo.

– Ah! Quem mandou?

– Pôxa, Cleusa, tô falando do meu amigo.

– Hã, hã.

– Ele tá na pior.

– E nós? Você pensou no que lhe falei?

Cleusa coloca a panela no escorredor, tira o avental, vira-se para ele e cruza os braços.

– Outra vez esse assunto, mulher? A gente tá falando de outra coisa.

– Pensou, Juvenal?

– Tô pensando é no coitado. Veio até me pedir dinheiro emprestado.

– Era só o que faltava!

– Se eu tivesse, emprestava.

– Claro. Se ele pedisse, você emprestava até sua mãe.

– Olha como você tá falando, Cleusa!

Juvenal está surpreso, ligeiramente irritado. Puxa a gola da camisa, estica um pouco o queixo. Às vezes, tem a impressão de que o egoísmo da Cleusa é tipo uma estrada reta que se perde de vista. Ela não dá a mínima pros outros. Perder o apartamento acaba com a vida de qualquer um.

– O que acaba com a vida é outra coisa, Juvenal.

Deve ter pensado alto, ou Cleusa adivinhou seu pensamento. Não seria a primeira vez.

– É o quê, Cleusa?

– E te interessa saber, Juvenal? Eu te dei um prazo, e o tempo passou.

– O tempo sempre passa, mulher, com ou sem prazo. Mas cê tá certa, é isso que acaba com a vida de um cristão, esse azucrinar de cabeça. Tô falando de um assunto importante, e você vem com outro. Nem escuta o que eu falo.

– Mas você não decidiu, não é? Você nunca decide nada, Juvenal. Se sua mãe tivesse esperado sua decisão pra pôr você no mundo, até hoje estaria de barriga.

– Estou falando de coisa séria, mulher, um amigo na pior, e lá vem a ladainha. “Já decidiu? Já decidiu?” Tá ficando impossível conversar nesta casa.

– Eu te dei um prazo, Juvenal. Nenhum dia a mais! O que é que você tava achando?

– Não tava achando nada.

– Você nunca acha nem meleca dentro do nariz. Mas cansei. Falei pra você que tava me cansando, e agora me cansei, Juvenal. Toma o anel.

– Que anel?

– Este que você me deu, esqueceu? Esse anel bobo, nem de ouro ele é, só folheado. Toma. É seu. Agora sai, Juvenal. A porta é serventia da casa.

– Sair pra onde, mulher?

– Pra onde você quiser. A casa é minha, Juvenal. Volta pro seu canto, que é melhor. Estou expulsando você da minha vida.

– Ora, Cleusa! Ficou maluca?

– Não, Juvenal. Fiquei lúcida. Arruma outra idiota, outra casa, outra noiva. Eu avisei. Hoje era meu limite. Cinco anos, Juvenal?! Faça o favor de sair. Agora.

– Mas …

– Acabou, Juvenal.

E Cleusa praticamente o empurra até a porta da sala e a bate com força, logo ela que nunca foi disso. Ele estranha, não está acostumado com rompantes. Toca a campainha outra vez. Várias vezes. Olha incrédulo para o anel na palma da mão. Sacode a cabeça, tonto, Mas o que foi que eu fiz? se pergunta. O que foi que eu fiz de errado?”

(Publicado por primeira veno jornal “O Popular”)

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