“A Teta Assustada”

Já falei em outro lugar sobre esse filme, mas como ele voltou ao cartaz (pelo menos em São Paulo), quero entusiasticamente recomendá-lo. É um filme peruano que concorreu ao Oscar como melhor filme estrangeiro. Diretora: Claudia Llosa.

O filme conta a história da filha de uma camponesa dos Andes. A mãe, com a filha em gestação, foi estuprada por soldados, nos anos de violência entre guerrilheiros e Forças Armadas em um Peru recente.

Essa filha, agora vivendo em uma favela de Lima, é uma moça que tem medo. Um medo paralisante que a imobiliza socialmente. Tem a enfermidade que seu povo chama de “teta assustada”, conseqüência do leite sofrido com que a mãe a amamentou.

O médico que a trata em Lima diz que tal enfermidade não existe.
Exista ou não, serve como bela metáfora para dizer que através do leite, a mãe passa para os filhos também seus sentimentos. Leite aqui significando leite mesmo, e significando também a entranhada desesperança que a mãe transmite para a filha no modo como a cria, na tristeza com que a cria, no sofrimento da vida dura em que a cria.

O filme é falado em quéchua – o primeiro longa em nossos cinemas falado nesse idioma profundamente musical dos Andes, tal como é musical a cultura andina. Em um “insight” que por si só já vale o filme, essa musicalidade é mostrada de maneira deslumbrante: a mãe e a filha só conversam cantando. É cantando que a mãe lhe narra o estupro. É cantando que a filha assustada tenta afastar seu pavor do mundo.

O Peru é um país onde duas culturas fortes se enfrentam desde a época da Conquista. Quando os espanhóis chegaram, não tiveram pejo: massacraram o quanto puderam até conseguir impor a cultura espanhola literalmente por cima dos fundamentos da economia e da cultura inca, estabelecida e riquíssima. Por cima porque não conseguiram destruí-la, e integrá-la nunca foi exatamente o objetivo. A sociedade peruana de hoje ainda é marcada pelo forte embate entre essas duas culturas, a de cima tentando manter a de baixo sempre embaixo, por mais violência que seja preciso.

A sorte – não só para os peruanos, mas para todos nós – é que o instinto de vida do ser humano costuma resistir. E com lirismo, poesia e solidariedade, esse instinto tem conseguido, no Peru, enfrentar tempos violentos e tremendas adversidades.

É de tudo isso que esse filme extraordinário nos fala. Quem puder, não deixe de ir.

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4 respostas para “A Teta Assustada”

  1. Gali disse:

    e o título original é em quechua ou espanhol? Pode me dizer, please?
    Fiquei tentada de ver…quem sabe consigo surrupiar da net, que duvido que esteja passando por aqui, e se estiver, vai estar dublado para o espanol
    Beijos

  2. Tania Mendes disse:

    Minha amiga, eu não gostei desse filme, realmente nada me tocou.
    Não sei explicar, mas não fi compatível com minahs expectativas, achei de fato muito chato. Enfim, gosto não se discute,não é?

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